"Porque uma coisa que odeio com relação à esperança - o que desprezo nela, aquilo que ninguém parece admitir sobre ela - é que, de repente, ter esperança é a rota mais fácil para escapar da desesperança.
E aquela esperança já está dentro de mim. De alguma forma, sem o meu convite para que ela entrasse ou sem a minha espera por ela, ela está lá, e baseada em quê? Em nada. Nada além da olhada que ela me deu e a visão de relance que eu tive de... Alguma coisa.
Eu estava parado na esquina da Charlotte Street quando tudo aconteceu. Acho que eram seis horas, e uma garota - é, porque você e eu sabemos que tem uma garota; tinha que ter uma garota; sempre tem uma garota - estava brigando com a porta do táxi preto e segurando uns pacotes. Ela usava um casaco azul e sapatos bonitos, e as sacolas brancas tinham coisas escritas que eu nunca tinha lido antes, além de caixas e um cacto quase caindo de uma sacola da Heal.
Eu estava prestes a passar reto por ela, porque é o que se faz em Londres, e, para ser honesto, quase passei. Mas ela quase deixou o cacto cair.. Com os pacotes todos tortos, ela teve de se curvar para mantê-los nos braços, e foi nesse momento que percebi que havia alguma coisa doce, pequena e frágil com ela.
E então ela pronunciou umas palavras que nem contarei aqui, pois sua avó pode passar e pegar esta página para ler.
Segurei um sorriso e olhei para o motorista, mas ele não reagiu, apenas ouvia o programa de esportes no rádio e fumava; e então - não sei por que, pois, como eu já disse, isso é Londres - perguntei se poderia ajudá-la.
E ela sorriu pra mim. Um sorriso inacreditável. De repente sinto toda masculinidade e confiança, como um faz-tudo que sabe exatamente qual prego comprar, e seguro seus pacotes e algumas de suas sacolas, e ela está pegando outras sacolas que parecem ter brotado de dentro do táxi, e está dizendo "Obrigada, é muito gentil da sua parte", e então acontece aquele momento. O olhar de relance, rápido, para aquela alguma coisa que mencionei. E me pareceu um começo. Mas o motorista estava impaciente, o ar da noite gelado, e acho que nós éramos muito britânicos para dizer qualquer coisa a não ser aquele "Obrigado" e dar um sorriso novamente.
Ela fechou a porta e vi o táxi partir, as luzes desaparecendo pela cidade e, no chão, atrás delas, a esperança se arrastando pra longe.
Então, quando o momento parecia ter acabado, olhei pra baixo.
Eu tinha algo em minhas mãos.
Uma caixa de plástico pequena.
Eu li as palavras impressas na frente.
Câmera Descartável 35 mm.
Eu queria gritar para o táxi, sacudir a câmera no alto e ter certeza de que ela sabia que tinha deixado alguma coisa pra trás. Por um segundo eu estava cheio de ideias - talvez, quando ela voltasse correndo, eu oferecesse um café e então concordaria quando ela dissesse que realmente precisava de uma boa taça de vinho, e pegaríamos uma garrafa, pois financeiramente faz mais sentido pegar uma garrafa, e perceberíamos que não deveríamos estar bebendo de estômago vazio, e, então, abandonaríamos nossos trabalhos e compraríamos um barco e começaríamos a fazer queijo no campo.
Mas nada aconteceu.
Nenhuma freada de pneu, nenhuma parada para mudança brusca da marcha, nada da luz de ré acender, nenhuma corrida ou garota sorridente com seus sapatos bonitos e um casaco azul.
Apenas outro táxi que parou e um homem gordo que desceu no caixa eletrônico.
Você entende o que quero dizer sobre esperança?" {charlotte street - danny wallace}
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